A sucessão estadual em Mato Grosso começa a ser desenhada em meio a um cenário de fragmentação política, isolamento do vice-governador Otaviano Pivetta e sinais cada vez mais evidentes de enfraquecimento da base que sustentou a reeleição do governador Mauro Mendes em 2022. O grupo político que chegou unido às urnas há dois anos foi progressivamente desarticulado, com antigos aliados hoje organizados em projetos próprios ou posicionados em campos de oposição ao Palácio Paiaguás.
O racha no governo estadual se reflete diretamente na dificuldade de Pivetta em se viabilizar eleitoralmente. Sem um grupo político consolidado, enfrentando resistência para fechar alianças e com desempenho ruim nas pesquisas de intenção de voto, o vice-governador tenta sustentar sua pré-candidatura em um ambiente político cada vez mais hostil. Nos bastidores, lideranças avaliam que esse isolamento não é circunstancial, mas consequência direta da perda de coesão da base governista e da redução da capacidade de articulação política do Executivo estadual ao longo do mandato.
Na reeleição de 2022, Mauro Mendes e Pivetta contaram com um amplo arco de alianças que incluía o Partido Liberal, o MDB, o PSB e o União Brasil, além de outras siglas. Esse desenho político, no entanto, se dissolveu. O PL lançou o senador Wellington Fagundes como pré-candidato ao governo, afastando-se do grupo governista. O MDB, sob a presidência estadual da deputada Janaina Riva, assumiu postura de oposição, com críticas frequentes à gestão estadual.
O PSB, que integrou a coligação vencedora, passou a ser comandado em Mato Grosso pelo ex-governador e ex-senador Pedro Taques, hoje um dos críticos mais duros do governo estadual. No próprio União Brasil, legenda do governador, o anúncio da pré-candidatura do senador Jaime Campos aprofundou divisões internas e expôs um ambiente de disputa que fragiliza qualquer tentativa de construção de um nome único para a sucessão.
O processo de esfacelamento da base governista pode avançar ainda mais. O Progressistas, partido que ainda orbita o campo governista em Mato Grosso, passou a ser visto como uma aliança instável diante do alinhamento nacional da sigla. Movimentos recentes da direção nacional do partido indicam aproximação com o campo bolsonarista, o que, na prática, pode empurrar a legenda no Estado para a base do senador Wellington Fagundes, reduzindo ainda mais o espaço político disponível para Pivetta.
O enfraquecimento do grupo governista ficou evidente nas eleições municipais de 2024, quando Mauro Mendes não conseguiu transferir votos de forma consistente para seus aliados. Em Cuiabá, maior colégio eleitoral do Estado, o deputado Eduardo Botelho, apoiado diretamente pelo governador, foi derrotado ainda no primeiro turno. Em Rondonópolis, o deputado Thiago Silva, também apoiado pelo Palácio Paiaguás, não conseguiu vencer a disputa. Em Várzea Grande, o então prefeito Kalil Baracat, aliado direto de Mauro Mendes e candidato à reeleição, também foi derrotado, consolidando uma sequência de reveses eleitorais em municípios estratégicos.
Esse histórico recente reforçou a avaliação de que o governador enfrenta limitações reais para converter prestígio institucional e presença administrativa em votos diretos. A leitura, nos bastidores, é de que essa dificuldade pode se intensificar caso Mauro Mendes decida disputar uma vaga no Senado. Nesse cenário, o governador teria de dividir sua atenção política entre a própria campanha e o projeto sucessório de Pivetta, reduzindo sua capacidade de atuar de forma concentrada como fiador político do vice.
O quadro pode se tornar ainda mais complexo caso a primeira-dama também venha a disputar um cargo eletivo. Com múltiplas candidaturas orbitando o mesmo núcleo político — Mauro Mendes, Otaviano Pivetta e eventualmente a primeira-dama —, a dispersão de foco, tempo e capital político tende a se ampliar. Nos bastidores, aliados avaliam que esse acúmulo de demandas pode tensionar até mesmo a aprovação pessoal do governador, hoje considerada um de seus principais ativos, ao submetê-la a disputas simultâneas e expectativas eleitorais concorrentes.
Esse conjunto de fatores pesa de forma decisiva sobre o projeto político de Pivetta. Diferentemente de sucessões tradicionais, em que o candidato governista herda base partidária sólida, estrutura política e impulso eleitoral, o vice-governador se vê diante de um cenário inverso: precisa se apresentar ao eleitor sem o respaldo claro de uma coalizão unificada, com alianças instáveis e sob o risco de depender de um capital político que pode ser diluído por múltiplas frentes eleitorais.
Para o eleitor mais atento, os sinais se acumulam. A fragmentação da base, o desempenho negativo de aliados em eleições recentes, a baixa capacidade de transferência de votos do governador, a possibilidade de sobreposição de candidaturas dentro do mesmo grupo político e a dificuldade de crescimento nas pesquisas passaram a alimentar, inclusive entre quadros estratégicos do próprio campo governista, questionamentos recorrentes sobre a viabilidade da candidatura de Otaviano Pivetta. Nos bastidores, avaliações reservadas indicam que dúvidas e desconfianças sobre sua capacidade de liderar um projeto competitivo deixaram de ser pontuais e passaram a circular com mais frequência entre aliados, reforçando a percepção de que a simples condição de vice-governador pode não ser suficiente para assegurar unidade política, tração eleitoral e confiança interna na disputa pelo governo de Mato Grosso.
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